Astrónomos e investigadores de todo o mundo manifestam forte oposição a propostas que alterariam dramaticamente o céu noturno: uma enorme constelação de espelhos em órbita concebidos para enviar luz solar para a Terra e a implementação planeada pela SpaceX de um milhão de centros de dados na órbita baixa da Terra. Estes projetos, submetidos à Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) para aprovação, ameaçam sobrecarregar as observações astronómicas e mudar fundamentalmente a visão que a humanidade tem do cosmos.
A ameaça à observação astronômica
Os projetos propostos representam um risco existencial para a astronomia terrestre. A Reflect Orbital pretende lançar 50.000 espelhos, cada um com cerca de 55 metros de largura, para refletir a luz solar em usinas de energia solar terrestres. Esses espelhos seriam várias vezes mais brilhantes que a lua cheia, obliterando sinais astronômicos fracos. A SpaceX pretende ter um milhão de data centers em órbita, que, embora mais escuros individualmente, criariam coletivamente um denso enxame de pontos visíveis no céu noturno.
Robert Massey, vice-diretor executivo da Sociedade Astronômica Real Britânica (RAS), descreveu a situação como “absolutamente a destruição de uma parte central do patrimônio humano”. O brilho absoluto desses objetos tornaria impossíveis muitas observações atuais. O Observatório Europeu do Sul (ESO) estima que os satélites da SpaceX podem resultar numa perda de 10-30% de pixels utilizáveis em imagens de telescópios como o Very Large Telescope no Chile. Os tempos de exposição triplicariam, tornando inatingíveis as observações de objetos fracos.
A escala do problema: por que é importante
A questão não é apenas estética. O céu noturno é um recurso partilhado, crucial para o progresso científico e o património cultural. As mudanças propostas impactariam não apenas os astrônomos profissionais, mas também os santuários do céu escuro, locais remotos dedicados à preservação da escuridão natural para pesquisa e diversão pública. A escala planeada destes projetos excede qualquer perturbação anterior no céu noturno, tornando-os um ponto de viragem crítico na forma como a humanidade gere a sua presença no espaço.
O rápido processo de aprovação por parte da FCC levanta preocupações de que as avaliações de impacto ambiental estejam a ser contornadas, colocando o ónus da prova sobre os oponentes e não sobre as empresas que propõem as alterações. Esta abordagem é alarmante, dado o potencial de danos irreversíveis ao céu noturno e à investigação astronómica.
Um movimento crescente contra a poluição espacial
A RAS, o ESO e inúmeras outras instituições de investigação apresentaram objeções formais à FCC. Os investigadores alertam que é necessária uma “política de linha vermelha” para limitar o número total de satélites em órbita. Sem tais limitações, o céu poderia tornar-se até três vezes mais brilhante, apagando milhares de milhões de anos de escuridão natural.
Noelia Noel, astrofísica da Universidade de Surrey, argumenta que estas propostas “marcam um momento crítico na forma como gerimos a presença da humanidade no espaço”. Embora a tecnologia de satélite ofereça benefícios, a expansão descontrolada corre o risco de alterar fundamentalmente o céu noturno, com consequências que se estendem para além da astronomia, até aos ecossistemas, ao património cultural e à nossa relação com o universo.
A trajetória atual representa um claro perigo para a integridade do nosso céu noturno. A menos que sejam tomadas medidas imediatas para limitar a proliferação de satélites e impor revisões ambientais minuciosas, as gerações futuras poderão herdar um mundo onde as estrelas serão abafadas pela luz artificial.





















